segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Devaneios: eu na história

Quando jovem eu tinha o mau hábito de caminhar sozinha pelas madrugadas.
Na verdade, sempre estava em grupo, mas no fundo muito só, varava as noites sem destino, gastando meus pés a esmo, sem qualquer futuro.
Não havia sentido na caminhada. Eu vagava, muda, tal qual um fantasma. Um espectro na noite junto a outros tantos espectros, que procuravam palavras e toques, mas que não saíam do lugar comum. Balbuciando como crianças pequenas na esperança de um acolhimento, na esperança de sermos entendidos.
Nada mais irreal ou impossível. Uma geração de amadurecimento muito tardio.
Talvez fruto da violência a que fomos submetidos ou mesmo da contradição, entre a força bruta e o nosso silêncio e, a luta que tivemos que travar contra o nosso medo e a violência que se impunha através do Estado e da família.
Além disso, existiam as drogas. Ah, sim... muitas possibilidades à disposição. Inúmeros jeitos de fugir de uma tomada de decisão. Mil maneiras do capital manipular a juventude: o verdadeiro estopim para qualquer mudança.
Os outros setores estavam por demais acostumados ao silêncio e ao medo.
Neste período os trabalhadores organizados foram a vanguarda. A greve metalúrgica no ABC foi a chave para a construção do PT e depois, da CUT. A juventude agora tinha um norte – o apoio total e irrestrito à mobilização dos trabalhadores. Nos organizávamos para ajudar de todas as maneiras. Dinheiro, militantes, apoio de todo tipo.
Paralelo a isso tínhamos a bandeira da Anistia Ampla, Geral e Irrestrita. E com a nossa juventude pueril, tudo estava combinado às drogas e ao lumpesinato (carioca no meu caso), não era uma mistura muito saudável. Neste viés o PDT conquistava um peso nas relações sociais no Rio de Janeiro.
Definitivamente este “quê” estudantil, impregnou o movimento dos trabalhadores. Mas claramente o movimento já estava tomado pela classe média e seus titubeios infantis já há algum tempo. Neste caso, o que deveria ser sim, sim ou não, não, se torna uma discussão insuportável de intermináveis variáveis tons de cinza possíveis, sem nunca se chegar a qualquer conclusão ou ação, o que é pior ainda, paralisando as mobilizações.
É claro que isso não se dá de um dia para o outro. Este é um movimento lento e gradual, que vai minando a resistência das massas aos poucos. Esvaziando as discussões que se tornam exaustivas para as bases. Muitos dos trabalhadores que já conhecem o álcool, passam a conhecer outros tipos de drogas e fazem uso delas. Os sindicatos se descaracterizam como instrumentos de luta depois de algum tempo, principalmente após a eleição de Lula.
Na verdade, tudo isso é uma sensação que guardo deste período. Agora, já mais velha e observando com um certo distanciamento, eu me observo e vejo este momento desta maneira. Vou guardar este relato para entender como farei esta observação daqui há uns anos, se viva eu estiver até lá.
Quem viver saberá!


sexta-feira, 29 de setembro de 2017

TINDERNESS

Há alguns anos, escrevi um poema em homenagem a uma amiga muito querida que dizia assim:
filosofia de alcova
sexo é bom, amor de ocasião. depende de um contexto. como saber se é certo ou não? é sempre um risco, tiro no escuro. tudo é assim na vida.
amar é bom. melhor é sexo com amor? ou só diferente? quanta gente tenta e tenta? às vezes não somos talhados para tal. nos conformemos.
sexo e amor, fazer o quê? - desce mais uma cerveja! ter os dois seria melhor, entretanto, a embriaguez acaba e não sei quem dorme a meu lado...
melhor esquecer o dilema.
Hoje, esta mesma amiga está casada e feliz com sua melhor amiga.
Até o momento em que escrevi o poema, ela se relacionava apenas com pessoas do sexo oposto. Então, vai saber não é mesmo, que surpresas a vida, a afetividade, o amor têm reservados para nós.
Estou aqui colocando esta discussão em pauta por causa destes aplicativos, agora muito em moda, para a gente sair do 0 x 0 nas relações afetivas de hoje em dia. Na verdade, se pode questionar como fiz no poema se o tal Tinder e outros aplicativos semelhantes, são mesmo uma resposta aos encontros na era da internet, mas não se pode negar que mais e mais pessoas se utilizam desses artifícios para conhecer parceiros de todo o tipo e para sanar as mais variadas carências. A principal delas, a carência sexual.
Sem parceiros afetivos a algum tempo, vários amigos e amigas minhas utilizam este tipo de dispositivo para tirar as teias de aranha, parar de subir pelas paredes e afogar o ganso, o que é sempre muito saudável.
Se estabelece aqui um mútuo acordo que pode ser bem prazeroso para as partes interessadas, não é mesmo? Mas por quanto tempo? Postergar indefinidamente estas relações minimalistas também não pode revelar que estamos estabelecendo relações superficiais e sem verdadeira intimidade? Frágeis relações afetivas exatamente como este tempo tão fugaz e consumista no qual vivemos hoje?
Por outro lado, não se permitir experimentar essas relações, também pode ser uma negação do prazer, mesmo que efêmero e a não se permitir conhecer outras pessoas, até bem diferentes daquelas a que estamos acostumados. O que não deixa de ser interessante e nos faz sair de nossa zona de conforto.
Talvez o que seja importante é não negar o fato de que somos gregários.
Que relações afetivas se estabelecem e que devemos estar abertos a elas. Porque não se enganem crescemos a medida que nos relacionamos e não que nos isolamos em uma caverna. Crescemos a medida que olhamos nossos medos de frente e que podemos exercer nossa loucura e criatividade juntos, já que somos humanos e como tais eternos artesãos de nossas vidas e amores.



quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

MULHERES DIZEM "EU TE AMO"

Passava pela rua distraída quando ouvi: “eu te amo” e a outra pessoa respondeu sorrindo: “também te amo, vai com Deus”.
Este pequeno diálogo de despedida, que me chamou tanto a atenção, preciso dizer? Se travou entre duas mulheres. Provavelmente duas amigas que se despediam. Enquanto uma entrava em um ônibus, outra continuava seu caminho. E foi assim que me surgiu esta ideia: as mulheres dizem “eu te amo”, pra nós é muito simples. Dizemos eu te amo para uma amiga que se vai, para nossos filhos, pais e mães, amigos no geral, parentes etc. Dizemos “eu te amo” porque amamos mesmo. Talvez por isso tenhamos tantos problemas em relacionamentos com o sexo oposto. Enquanto mulheres derramam seus sentimentos com facilidade e, concordo, até de forma “descuidada”, nossos parceiros raramente se expõe.
Esses papeis sociais, estúpidos e limitantes, que definem de maneira tão cruel o papel da mulher e do homem e o comportamento de cada um é fator de desencontros e, gera uma violência absurda, além do fato de estarmos presos em uma sociedade capitalista que faz qualquer coisa para sobreviver estimulando mais violência e destruição, no favorecimento à indústria da morte e da doença, na difusão do ódio e discriminação generalizada, no incentivo aos alimentos transgênicos, no esgotamento dos recursos naturais da Terra etc.
Apesar disso tudo, sou mulher e digo “eu te amo”. De forma natural e sem qualquer vergonha. Embora agora esteja mais seletiva com meus amores, minha família querida e meus queridos amigos podem me escutar dizer mil vezes: Eu amo vocês! E eu, posso ouvir que me amam também em retorno. E não há nada melhor do que isso. Embora muitos não acreditem dizer eu te amo é sim, libertador. Experimentem!

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Tempo, tempo, tempo...

Segundo Einstein o tempo, como o entendemos, ele não existe.
“A distinção entre passado, presente e futuro é apenas uma ilusão teimosamente persistente.”
O passado, o presente e o futuro convivem muito bem obrigada, no mesmo espaço. O que para nós parece muito louco, afinal entendemos o tempo em compartimentos, através dos ponteiros dos relógio dizemos: o tempo passa. É como se o tempo fosse uma linha de acontecimentos vividos por nós e pela humanidade, em nossa trajetória, em nossa história.
Seria caótico perceber o tempo como uma profusão de acontecimentos simultâneos. Passado, presente e futuro se misturando no espaço nos permitiria uma consciência global dos fatos, dos seres, previsões, percepções, interconexões e nem sei mais o quê.
Para Deus, aprendemos que o tempo é o Kairós. O kairós é o momento da ação de Deus no mundo. Este é o Kairós de Deus, o momento em que ele define agir.
Para a filosofia grega, kairós simbolizava a ideia de tempo momentâneo, uma oportunidade ou um período específico para a realização de determinada atividade, por exemplo. Kairós não era entendido como um tempo cronológico, mas sim como um momento no presente ideal para algo. Acho que isso esclarece um pouco mais sobre o assunto.
O nosso tempo, medido em segundos, minutos, horas, dias, meses, anos, chama-se cronos.
Então essa ideia de tempos convivendo me deixa absolutamente extasiada. Muda tudo, toda a concepção que tive de tempo até agora. É claro que tenho um entendimento superficial da relatividade. Uma lástima, gostaria de aprender mais.
Há uma frase do Einstein que gosto muito e acho que podemos partir daí para entender melhor tempo e espaço: “O dia está a minha frente esperando para ser o que eu quiser. E aqui estou eu, o escultor que pode dar forma a este dia.”
Seremos isso mesmo? Escultores de nossa própria vida, tempo e espaço? Qual a chave para tudo, qual o segredo? Me apoderar de uma nova ideia pode ser apenas isso, quem sabe? Você sabe?

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Céu de outono

Boa hora pra falar de dores antigas, de amores distantes. Tão longínquos que você se pergunta,
por quê?
Talvez seja o céu de outono, ele me faz lembrar dos teus olhos distantes.
Ilhas vazias dentro de mim.
Tão frios e assustadores, tão familiares e acolhedores.
Eu que te amei tanto, mas tanto que sempre que me lembro do quanto, eu sinto a mesma angústia de antes.
De quando te vi pela primeira vez ser de outra.
Quando te vi cheio de ódio pela primeira vez.
Da angústia que senti quando me vi cheia do mesmo ódio, pela primeira vez. Eu que te amava tanto.
Você me roubou o meu amor? Pra onde foi todo aquele amor imenso que tive?
Que eu tinha em mim e que gritava pro mundo sem qualquer constrangimento?
Me devolve todas as risadas, todas as minhas lágrimas, todos os meus beijos.
Eu não consegui nada na mesma intensidade com ninguém mais... só no seu colo eu descansei, só com você eu me aventurei, só com você eu errei, eu acertei ou fui tudo ou nada.
Mas não se preocupe (eu sei mesmo que não faço parte das suas preocupações), outonos passam e a cada outono você está um pouco menos dentro de mim.
Até que não reste mais nada do teu azul, nada da tua voz, nada da tua presença, das tuas verdades perfeitas ou das tuas certezas.
Até que não reste mais vestígios teus em mim ou na paisagem.
Porque de verdade ainda tenho meus dois braços e minhas pernas e nada me foi amputado.
Eu ainda estou aqui para mim e para a vida que eu escolhi.
E é certo que eu não te amo mais.

sábado, 29 de agosto de 2015

Causos do Cotidiano de Copacabana III

Copacabana tem seus tipos folclóricos.

Outro dia, peguei um taxi para casa e o taxista me perguntou pra onde? Bastou falar que ia para Prado Júnior, pro cara puxar assunto. Mora em Copacabana há muito tempo? Conheceu fulano? E beltrano? E ficamos lá nos lembrando das figuraças que conhecemos na adolescência: o mendigo "éter", o cara que se vestia todo de branco, inclusive usava um turbante e vinha pra praia, num calor de 40º, vender comida árabe, o gago, Clóvis Bornay, um universo de jogadores de futebol que frequentavam Copacabana e o seu Zé das Medalhas.

O Zé das Medalhas, na verdade Altair Domiciano Gomes, era figura emblemática do bairro. Coberto de colares com medalhas de todos os tipos e tamanhos, os dedos cheios de aneis e os braços repletos de pulseiras. Uma pesada Carmen Miranda ou uma Carmen Miranda da pesada!

O Zé era figura respeitadíssima entre todos, inclusive entre as crianças. Era quase uma entidade, um orixá.

Ele era um negro enorme, uma figura majestosa com todos os seus badulaques.

Trabalhava na Farmácia do Leme, estabelecimento na Rua Prado Jùnior, vulgo PJ, famosa pelas prostitutas e travestis e seus pontos habituais, boates e afins. Naquele tempo, se não me engano, era a única farmácia e já ficava aberta 24 horas.

Toda aquela área pertencia a boêmia carioca e o Zé era famoso no pedaço e se sentia em casa.

Na década de 80, casei, mudei e fui morar em outro Estado. Quando voltei ainda cheguei a rever o Zé, já meio grisalho, entretanto, soube tempos depois que ele havia tido um AVC e já não estava mais trabalhando.

Sumiu o Zé das Medalhas, que com sua elegância exuberante, emprestava toda esta singularidade a Copacabana.

Mas saiba Zé que no nosso imaginário você ainda passeia pelas ruas de Copa. Ou ainda te vemos parado na porta da farmácia com toda a sua simpatia, "causando", como você sempre gostou de fazer.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Causos do cotidiano de Copacabana II

Este foi logo na primeira semana do outono, onde logo cedo parti para caminhar no calçadão.

Tinha atravessado a Barata Ribeiro, quando me deparei com aquela cena inusitada: uma mulher trôpega, totalmente embriagada, gritava no celular - Eu só queria fazer você feliz, eu só queria fazer você feliz!

Se a pobre não estivesse tão bêbada eu a teria parado imediatamente.

- Peraí, desliga já este celular! Que história é essa de eu só queria fazer você feliz? Pode parar. Então é assim, o outro se enche de si mesmo enquanto você fica totalmente vazia de si mesma? Prestou atenção? Está se ouvindo? Cadê a autoestima filha?

Me deu uma vontade danada de sacudir a pessoa.

Mas a criatura estava pra lá de Marrakech, sem chance de ser situada na vida.

Na hora que a gente leva um pé na bunda vale tudo, rodar a baiana, descer do salto, chutar o pau da barraca e tudo mais que se tem direito, mas depois, sem essa de se humilhar, de por o outro num lugar que a gente inventa. E dá pra dizer tudo isso porque eu já fiz essas besteiras então, falo de cadeira.

Esta coisa de amar demais, de se apaixonar e se rasgar toda, é legal só em bolero.

E isso vale pra todo mundo, porque todo mundo é humano e muitas vezes carente ou sofrido e ainda acredita que a sua felicidade está sempre no outro.

Eu já disse e repito, em Copacabana há muitas histórias, eu presto atenção a todas elas. São todas tão humanas e doidas que sempre parece natural que elas aconteçam aqui, nesta Copabacana.