terça-feira, 30 de outubro de 2018

Novas Diásporas

Segundo Renato Nunes Bittencourt em seu artigo Os Sem Lugar da Humanidade, na Revista Filosofia Ciência e Vida, nº 142, Ano X de setembro de 2018: Uma das pautas mais urgentes da filosofia política em sua imprescindível concretude é a questão dos imigrantes e refugiados (...).
Diante da extraordinária e assustadora leva de hondurenhos em marcha para os EUA que assistimos recentemente e, a reação absurda e temerária de Trump, a miséria e tragédia dessas populações, se faz fundamental e urgente esta discussão.
A discussão de quem somos. Somos uma única raça ou somos várias tribos divididas por fronteiras “artificiais” e geopoliticamente traçadas? Somos mesmo todos da raça humana apenas e, como tais, com direitos fundamentais garantidos? Quem queremos ser?
Massas se deslocam pelo mundo fugindo de guerras, da miséria extrema em que vivem em seus países de nascença, de pandemias, da violência e da falta absoluta de perspectiva em todos os sentidos. Se deslocam de seus locais de pertencimento, de história e de cultura para o desconhecido buscando sobrevivência, buscando subsistência e reconstrução de suas vidas destruídas. Famílias inteiras perdem suas raízes, sua identidade em busca de alguma paz e alento para suas necessidades básicas. E o que encontram em outras terras?
A primeira coisa que temos que ter em mente para lidar com estas questões é: estamos lidando com seres humanos como nós! Então este é um problema “humanitário”.
Não se trata de fechar os olhos e dizer: Que se danem! Que o país vizinho resolva este problema, nós já temos os nossos.
Este é um problema que deve ser enfrentado por todos nós, pois se trata do ser humano cuidando de outros seres humanos.
Imigrantes e refugiados pelo mundo são o resultado do mundo que criamos. Neste mundo globalizado e tecnológico em que vivemos, não adianta dizer que não temos nada a ver com isso, é como se o mundo todo fosse uma coisa só. As guerras na Síria nos afetam sim! Sinto lhe dizer. Afetam toda a economia mundial, afetam a política mundial e tem efeitos diretos sobre a economia e a política de todos os países. Você não acredita? Existe um tal de G8 que determina a economia no mundo, tarifas de importação e exportação etc, que nem sabemos como funciona totalmente, mas entendemos que existe e regula a economia mundial.
Não adianta o Trump gritar que no meio dos hondurenhos pobres e maltrapilhos há “terroristas muçulmanos infiltrados”, as levas de refugiados continuarão chegando.
Não adianta ver o desconhecido com medo e pânico: dê nome aos imigrantes e refugiados. Isso, pergunte seus nomes, saiba da sua história porque saíram do seu lar, dos seus países, onde falavam sua língua, usavam um tipo de roupa, comiam um tipo de comida e tiveram que abandonar tudo para se aventurar num lugar muitas vezes hostil e diferente do que eles estavam acostumados. Muitas vezes enfrentar o ódio em vez do acolhimento das pessoas.
Em um mundo onde, ao que parece, o ódio está mais presente que o amor e o preconceito parece muito mais próximo de nós que o acolhimento, é muito provável que perdure a imigração de levas maiores de pessoas para outros países. Que as diásporas se consolidem nestes tristes tempos em que vivemos. E teremos que olhar para isso com olhos solidários e humanos e não com preconceito e egoísmo.

terça-feira, 10 de julho de 2018

TRANSCRIÇÃO DE UMA CRÔNICA DE LEON ELIACHAR NA CASA DE MEU PAI, NORMANDO LOPES

O TELEFONE TILINTA E FAZ O NOSSO ROTEIRO (AGITADO) PARA UM FIM DE SEMANA (COM FINAL FELIZ)
 LEON ELIACHAR (Ano III - PENÚLTIMA HORA - Rio, 3 de dezembro de 1957 - nº 580)
Um telefonema me levou à residência do Sr. Normando Ferreira Lopes e senhora, para uma reunião. Às três da manhã, dois estampidos nos levam a janela, que dá frente para a Rua Felipe de Oliveira, e os primeiro curiosos que começam a se juntar em volta de um jipe, arrastam até lá embaixo a nossa incontrolável curiosidade. Debaixo do jipe, um homem baleado (pelas costas) geme de dor, enquanto populares discutem várias hipóteses. Quem não viu, afirma coisas; quem viu, diz que não viu nada. O carro da rádiopatrulha chega ao local, mas não pode chamar a ambulância, porque o seu rádio estava enguiçado. Engraçado: chama-se “rádiopatrulha”, mas só a patrulha é que funcionava. Enfim, a Sra. Ferreira Lopes[1] ligou para a assistência e (que milagre!) em poucos instantes chegou uma ambulância que levou o homem. As discussões continuaram.
- Onde estão os guardas civis que atiraram no homem?
- Pegaram um lotação...
- E onde estão os Cosme e Damião que corriam atrás do homem?
- Estão aqui, mas também iam fugir. Fui eu quem os trouxe de volta – disse Marcelo, rapaz mais conhecido por “Bicudo” nas rodas boêmias da Zona Sul.
Diante da revolta em face do crime, considerado covarde por todos, várias testemunhas se apresentaram para indiciar[2] os Cosme e Damião como suspeitos: um funcionário da Polícia Técnica, que examinou suas armas (intatas), o Sr. Normando Ferreira, o Sr. Wolney Brandão e o Sr. Marcelo; estavam todos dispostos a fazer vir à tona a verdade. Acompanhei-os ao 2º Distrito, ainda movido pela curiosidade, pois gosto de aprender como “funciona” o nosso organismo policial.
Fiz perguntas, aparentemente absurdas: porque os guardas civis fugiram? Eles não tinham motivo para atirar? Quem me explica é outro guarda: “Ele fugiu para livrar o flagrante. Uma vez matei um homem em legítima defesa; depois dele me dar três tiros, acertei-o e ele caiu. Fui socorrê-lo e gastei 66 mil cruzeiros para me defender pelo crime de “homicídio”.
Nunca mais! Se eu for obrigado a atirar outra vez meto o pé...” O dia já estava clareando, quando o auxiliar de Comissário, Sr. Enio Jorge, me reconheceu entre os curiosos e se aproximou para me dar um abraço (apesar das minhas críticas, fiquei satisfeito em saber que também tinha fãs dentro da própria Polícia) e me disse: “Sente aqui ao meu lado; você verá coisas engraçadíssimas para escrever”. De fato, as “ocorrências” vão desfilando quase automaticamente; não para nunca. Às sete da manhã o Sr. Enio me oferece condução, num carro da radiopatrulha: “Muito obrigada, mas como é que eu vou explicar essa “carona” ao porteiro do meu edifício?...” Ia me afastar, quando o Sr. Enio pediu fogo; acendi o seu cigarro e fiquei na moita – pois vira perfeitamente quando a sua caixa de fósforos fora furtada, dentro da própria Delegacia. Sabe-se lá se ele não acabaria me convocando para testemunha? Cheguei em casa, deitei, fechei os olhos e pensei: “E dizer que se eu tivesse saído da reunião, poucos minutos antes, esta crônica hoje não sairia.” Não porque não tivesse acompanhado o crime – mas justamente porque poderia ter sido eu próprio a vítima...
[1] É engraçado notar que minha mãe não tem nome! Aliás o nome dela era Noemia.

[2] Se fosse hoje em dia, heim?

terça-feira, 3 de abril de 2018

HANG MASSIVE



O HOMEM DO DISCO VOADOR

Hoje cheguei arrasada no trabalho. Voltei da minha semana preciosa de recesso, de uma preciosa semana de liberdade, sem poderoso chefão, sem chefete e quando chego no meu local de trabalho: o caos está instalado!
Pilhas e pilhas de caixas de livros e documentos espalhadas pelo salão da biblioteca, porque ninguém orientou a pessoa a colocar as caixas empilhadas em um local melhor ou, mais adequado. 
Explodi... tá bom, eu deveria ser mais flexível e compreender que tudo é assim mesmo e ir levando o barco para a margem segura. É que eu ainda me importo com não sei o quê. 
De qualquer forma, agora depois do almoço e do incenso, eu me pergunto: o que será que dá para salvar deste dia? Aí me lembrei do homem do metrô (sempre o metrô!) e o seu disco voador. 
Eu explico: estava vindo trabalhar como sempre de metrô quando observei um rapaz, sentar no meio do vagão em sua mochila. 
Não sem antes tirar dela um objeto não identificado, pelo menos por mim.
O rapaz sentado na mochila começa a montar o objeto composto de duas partes: dois enormes pratos largos e grandes, no feitio de um disco voador, desses que a gente vê nos desenhos animados e começou a tocar.
Do disco voador surgiu um som totalmente inesperado e sutil que encheu o vagão de musicalidade e me fez sorrir. É claro que não só a mim! 
Pois bem, eu recupero pra vocês esta sonoridade gostosa e diferente esperando que todos tenham a mesma sensação que eu e que possamos esquecer um pouco de que hoje ainda é segunda-feira.
Ah e o instrumento chama-se “hang drum”.

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Histórias de amores de outros planetas


Eis aí um título bacana. Na verdade não me lembro se o título diz respeito a um livro ou a um filme, mas do que gostei mesmo foi deste precioso título (que nem ao menos sei se é este mesmo ao “pé da letra”).
Sabem o que fiquei imaginando? Não serão todos os amores de outro planeta?
E é claro que não falo dos amores corriqueiros e passageiros, dos amores noturnos e escorregadios ou dos amores obsessivos e cheios daquele drama rançoso e ciumento. Ah, não, eu falo daquele amor que deseja e que se doa cotidianamente, que se arrepende todos os dias e que todos os dias renova sua aliança se recriando.
Esse grande barato, que sejamos honestos, eu nunca vivi porque sou deste planeta, deste país.
Mas eu acredito que deva ser vivido por muita gente por aí, em Marte, Vênus, Plutão ou Mercúrio, pessoas que apesar do medo curtem a experiência de amar outra pessoa que não sejam elas mesmas. Que escolhem a cada dia estar com aquele ali, não por carência ou falta absoluta de opção, mas porque é ele (ou ela) e é com ele que o sexo é melhor a cada novo momento, é com ele que as chatices cotidianas não são mais tão chatas.
Olhe para dentro de si mesmo e se pergunte: você já escolheu ser feliz? Você em algum momento de sua existência já se perguntou se viver o caos de uma viagem por outros planetas vale a pena? Porque definitivamente este não parece ser um mundo para amores, certo? Este parece ser um mundo para ódios eternos e um pra sempre de tédios e desejos. Um planeta de acasos.
E é sempre por acaso que escolhemos o mais podre e complicado dos mortais para termos nosso relacionamento tedioso. Não porque sejamos diferentes dele, apenas escolhemos mais uma vez o nosso avesso, que se observarmos direitinho no espelho, será nosso reflexo mais bem acabado a cada vez.
Mas não quero que ninguém pense em mim como uma pessoa amarga e desesperançosa, ah, isso não!
Afinal, a cada momento vemos os homens avançando em seus inventos tecnológicos e, logo, logo, as viagens para outros planetas se tornará possível e as gerações futuras poderão renovar suas esperanças no amor.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Devaneios: eu na história

Quando jovem eu tinha o mau hábito de caminhar sozinha pelas madrugadas.
Na verdade, sempre estava em grupo, mas no fundo muito só, varava as noites sem destino, gastando meus pés a esmo, sem qualquer futuro.
Não havia sentido na caminhada. Eu vagava, muda, tal qual um fantasma. Um espectro na noite junto a outros tantos espectros, que procuravam palavras e toques, mas que não saíam do lugar comum. Balbuciando como crianças pequenas na esperança de um acolhimento, na esperança de sermos entendidos.
Nada mais irreal ou impossível. Uma geração de amadurecimento muito tardio.
Talvez fruto da violência a que fomos submetidos ou mesmo da contradição, entre a força bruta e o nosso silêncio e, a luta que tivemos que travar contra o nosso medo e a violência que se impunha através do Estado e da família.
Além disso, existiam as drogas. Ah, sim... muitas possibilidades à disposição. Inúmeros jeitos de fugir de uma tomada de decisão. Mil maneiras do capital manipular a juventude: o verdadeiro estopim para qualquer mudança.
Os outros setores estavam por demais acostumados ao silêncio e ao medo.
Neste período os trabalhadores organizados foram a vanguarda. A greve metalúrgica no ABC foi a chave para a construção do PT e depois, da CUT. A juventude agora tinha um norte – o apoio total e irrestrito à mobilização dos trabalhadores. Nos organizávamos para ajudar de todas as maneiras. Dinheiro, militantes, apoio de todo tipo.
Paralelo a isso tínhamos a bandeira da Anistia Ampla, Geral e Irrestrita. E com a nossa juventude pueril, tudo estava combinado às drogas e ao lumpesinato (carioca no meu caso), não era uma mistura muito saudável. Neste viés o PDT conquistava um peso nas relações sociais no Rio de Janeiro.
Definitivamente este “quê” estudantil, impregnou o movimento dos trabalhadores. Mas claramente o movimento já estava tomado pela classe média e seus titubeios infantis já há algum tempo. Neste caso, o que deveria ser sim, sim ou não, não, se torna uma discussão insuportável de intermináveis variáveis tons de cinza possíveis, sem nunca se chegar a qualquer conclusão ou ação, o que é pior ainda, paralisando as mobilizações.
É claro que isso não se dá de um dia para o outro. Este é um movimento lento e gradual, que vai minando a resistência das massas aos poucos. Esvaziando as discussões que se tornam exaustivas para as bases. Muitos dos trabalhadores que já conhecem o álcool, passam a conhecer outros tipos de drogas e fazem uso delas. Os sindicatos se descaracterizam como instrumentos de luta depois de algum tempo, principalmente após a eleição de Lula.
Na verdade, tudo isso é uma sensação que guardo deste período. Agora, já mais velha e observando com um certo distanciamento, eu me observo e vejo este momento desta maneira. Vou guardar este relato para entender como farei esta observação daqui há uns anos, se viva eu estiver até lá.
Quem viver saberá!