quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

MULHERES DIZEM "EU TE AMO"

Passava pela rua distraída quando ouvi: “eu te amo” e a outra pessoa respondeu sorrindo: “também te amo, vai com Deus”.
Este pequeno diálogo de despedida, que me chamou tanto a atenção, preciso dizer? Se travou entre duas mulheres. Provavelmente duas amigas que se despediam. Enquanto uma entrava em um ônibus, outra continuava seu caminho. E foi assim que me surgiu esta ideia: as mulheres dizem “eu te amo”, pra nós é muito simples. Dizemos eu te amo para uma amiga que se vai, para nossos filhos, pais e mães, amigos no geral, parentes etc. Dizemos “eu te amo” porque amamos mesmo. Talvez por isso tenhamos tantos problemas em relacionamentos com o sexo oposto. Enquanto mulheres derramam seus sentimentos com facilidade e, concordo, até de forma “descuidada”, nossos parceiros raramente se expõe.
Esses papeis sociais, estúpidos e limitantes, que definem de maneira tão cruel o papel da mulher e do homem e o comportamento de cada um é fator de desencontros e, gera uma violência absurda, além do fato de estarmos presos em uma sociedade capitalista que faz qualquer coisa para sobreviver estimulando mais violência e destruição, no favorecimento à indústria da morte e da doença, na difusão do ódio e discriminação generalizada, no incentivo aos alimentos transgênicos, no esgotamento dos recursos naturais da Terra etc.
Apesar disso tudo, sou mulher e digo “eu te amo”. De forma natural e sem qualquer vergonha. Embora agora esteja mais seletiva com meus amores, minha família querida e meus queridos amigos podem me escutar dizer mil vezes: Eu amo vocês! E eu, posso ouvir que me amam também em retorno. E não há nada melhor do que isso. Embora muitos não acreditem dizer eu te amo é sim, libertador. Experimentem!

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Tempo, tempo, tempo...

Segundo Einstein o tempo, como o entendemos, ele não existe.
“A distinção entre passado, presente e futuro é apenas uma ilusão teimosamente persistente.”
O passado, o presente e o futuro convivem muito bem obrigada, no mesmo espaço. O que para nós parece muito louco, afinal entendemos o tempo em compartimentos, através dos ponteiros dos relógio dizemos: o tempo passa. É como se o tempo fosse uma linha de acontecimentos vividos por nós e pela humanidade, em nossa trajetória, em nossa história.
Seria caótico perceber o tempo como uma profusão de acontecimentos simultâneos. Passado, presente e futuro se misturando no espaço nos permitiria uma consciência global dos fatos, dos seres, previsões, percepções, interconexões e nem sei mais o quê.
Para Deus, aprendemos que o tempo é o Kairós. O kairós é o momento da ação de Deus no mundo. Este é o Kairós de Deus, o momento em que ele define agir.
Para a filosofia grega, kairós simbolizava a ideia de tempo momentâneo, uma oportunidade ou um período específico para a realização de determinada atividade, por exemplo. Kairós não era entendido como um tempo cronológico, mas sim como um momento no presente ideal para algo. Acho que isso esclarece um pouco mais sobre o assunto.
O nosso tempo, medido em segundos, minutos, horas, dias, meses, anos, chama-se cronos.
Então essa ideia de tempos convivendo me deixa absolutamente extasiada. Muda tudo, toda a concepção que tive de tempo até agora. É claro que tenho um entendimento superficial da relatividade. Uma lástima, gostaria de aprender mais.
Há uma frase do Einstein que gosto muito e acho que podemos partir daí para entender melhor tempo e espaço: “O dia está a minha frente esperando para ser o que eu quiser. E aqui estou eu, o escultor que pode dar forma a este dia.”
Seremos isso mesmo? Escultores de nossa própria vida, tempo e espaço? Qual a chave para tudo, qual o segredo? Me apoderar de uma nova ideia pode ser apenas isso, quem sabe? Você sabe?

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Céu de outono

Boa hora pra falar de dores antigas, de amores distantes. Tão longínquos que você se pergunta,
por quê?
Talvez seja o céu de outono, ele me faz lembrar dos teus olhos distantes.
Ilhas vazias dentro de mim.
Tão frios e assustadores, tão familiares e acolhedores.
Eu que te amei tanto, mas tanto que sempre que me lembro do quanto, eu sinto a mesma angústia de antes.
De quando te vi pela primeira vez ser de outra.
Quando te vi cheio de ódio pela primeira vez.
Da angústia que senti quando me vi cheia do mesmo ódio, pela primeira vez. Eu que te amava tanto.
Você me roubou o meu amor? Pra onde foi todo aquele amor imenso que tive?
Que eu tinha em mim e que gritava pro mundo sem qualquer constrangimento?
Me devolve todas as risadas, todas as minhas lágrimas, todos os meus beijos.
Eu não consegui nada na mesma intensidade com ninguém mais... só no seu colo eu descansei, só com você eu me aventurei, só com você eu errei, eu acertei ou fui tudo ou nada.
Mas não se preocupe (eu sei mesmo que não faço parte das suas preocupações), outonos passam e a cada outono você está um pouco menos dentro de mim.
Até que não reste mais nada do teu azul, nada da tua voz, nada da tua presença, das tuas verdades perfeitas ou das tuas certezas.
Até que não reste mais vestígios teus em mim ou na paisagem.
Porque de verdade ainda tenho meus dois braços e minhas pernas e nada me foi amputado.
Eu ainda estou aqui para mim e para a vida que eu escolhi.
E é certo que eu não te amo mais.

sábado, 29 de agosto de 2015

Causos do Cotidiano de Copacabana III

Copacabana tem seus tipos folclóricos.

Outro dia, peguei um taxi para casa e o taxista me perguntou pra onde? Bastou falar que ia para Prado Júnior, pro cara puxar assunto. Mora em Copacabana há muito tempo? Conheceu fulano? E beltrano? E ficamos lá nos lembrando das figuraças que conhecemos na adolescência: o mendigo "éter", o cara que se vestia todo de branco, inclusive usava um turbante e vinha pra praia, num calor de 40º, vender comida árabe, o gago, Clóvis Bornay, um universo de jogadores de futebol que frequentavam Copacabana e o seu Zé das Medalhas.

O Zé das Medalhas, na verdade Altair Domiciano Gomes, era figura emblemática do bairro. Coberto de colares com medalhas de todos os tipos e tamanhos, os dedos cheios de aneis e os braços repletos de pulseiras. Uma pesada Carmen Miranda ou uma Carmen Miranda da pesada!

O Zé era figura respeitadíssima entre todos, inclusive entre as crianças. Era quase uma entidade, um orixá.

Ele era um negro enorme, uma figura majestosa com todos os seus badulaques.

Trabalhava na Farmácia do Leme, estabelecimento na Rua Prado Jùnior, vulgo PJ, famosa pelas prostitutas e travestis e seus pontos habituais, boates e afins. Naquele tempo, se não me engano, era a única farmácia e já ficava aberta 24 horas.

Toda aquela área pertencia a boêmia carioca e o Zé era famoso no pedaço e se sentia em casa.

Na década de 80, casei, mudei e fui morar em outro Estado. Quando voltei ainda cheguei a rever o Zé, já meio grisalho, entretanto, soube tempos depois que ele havia tido um AVC e já não estava mais trabalhando.

Sumiu o Zé das Medalhas, que com sua elegância exuberante, emprestava toda esta singularidade a Copacabana.

Mas saiba Zé que no nosso imaginário você ainda passeia pelas ruas de Copa. Ou ainda te vemos parado na porta da farmácia com toda a sua simpatia, "causando", como você sempre gostou de fazer.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Causos do cotidiano de Copacabana II

Este foi logo na primeira semana do outono, onde logo cedo parti para caminhar no calçadão.

Tinha atravessado a Barata Ribeiro, quando me deparei com aquela cena inusitada: uma mulher trôpega, totalmente embriagada, gritava no celular - Eu só queria fazer você feliz, eu só queria fazer você feliz!

Se a pobre não estivesse tão bêbada eu a teria parado imediatamente.

- Peraí, desliga já este celular! Que história é essa de eu só queria fazer você feliz? Pode parar. Então é assim, o outro se enche de si mesmo enquanto você fica totalmente vazia de si mesma? Prestou atenção? Está se ouvindo? Cadê a autoestima filha?

Me deu uma vontade danada de sacudir a pessoa.

Mas a criatura estava pra lá de Marrakech, sem chance de ser situada na vida.

Na hora que a gente leva um pé na bunda vale tudo, rodar a baiana, descer do salto, chutar o pau da barraca e tudo mais que se tem direito, mas depois, sem essa de se humilhar, de por o outro num lugar que a gente inventa. E dá pra dizer tudo isso porque eu já fiz essas besteiras então, falo de cadeira.

Esta coisa de amar demais, de se apaixonar e se rasgar toda, é legal só em bolero.

E isso vale pra todo mundo, porque todo mundo é humano e muitas vezes carente ou sofrido e ainda acredita que a sua felicidade está sempre no outro.

Eu já disse e repito, em Copacabana há muitas histórias, eu presto atenção a todas elas. São todas tão humanas e doidas que sempre parece natural que elas aconteçam aqui, nesta Copabacana.

Causos do cotidiano de Copacabana I

Hoje tive que acordar cedo. Precisava postar o meu livro para uma amiga poeta de Pernambuco.

Então me arrumei e parti para papelaria, sempre envio meus livros em um envelope especial, forrado com plástico bolha em seu interior.

Estava eu na papelaria, minha favorita na Nossa Senhora de Copacabana, pertinho de casa, escolhendo o meu envelope quando de repente me entra um sujeito alto e interessante (o que significa um cara pegável, mas não bonito), se aproxima da moça do caixa e inicia o seguinte diálogo:

- Eu trouxe esta caneta pra você. (Imediatamente ambos se tornaram o foco de todas as atenções!)
e ele continua: Era do meu irmão, quer dizer meu irmão tinha um negócio, eu acho que ele ainda tem. (faz uma pausa pensativo!) e engata... Um negócio de família, que passou de pai para filho, sacou? Bem, de qualquer forma eu deixo a caneta com você.

E aí, girou nos calcanhares e saiu da loja.

Por alguns segundos todos ficaram se olhando em silêncio, até que a moça do caixa, incrédula e com a caneta na mão perguntou:

- Alguém entendeu alguma coisa?

Aí a risada foi generalizada e cada um dos presentes deu sua opinião sobre o "inusitado".

É claro que eu também aproveitei pra dar o meu pitaco. Porque na minha opinião o rapaz meio sem jeito ou do jeitão lá dele, só estava mesmo querendo chegar na moça do caixa.

De qualquer forma, eu sempre fico com a impressão que essas coisas só acontecem aqui (ou ainda acontecem aqui), neste começo de tudo que é Copacabana, não é não?

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Serena do mar (contos da sereia)

I

Serena veio dar na praia...
Deixou-se ficar na areia, ao sol.
Seca, firmou-se sobre suas transformadas pernas. Feliz, foi perambular pelo povoado.
Estava tão curiosa para conhecer o Marujo, aquele de quem suas irmãs tanto falavam,
de quem ouvira tantas histórias.
Já no povoado, Serena observava o movimento, as gentes, em suas atividades diárias.
Distraída, nem percebeu este alguém atrás dela.
- Você demorou tanto! disse a voz em seu ouvido, masculina e rouca.
Seu coração deu um pulo. Ai, só podia ser ele.

Fim do primeiro encantamento.

II

Serena buscou no mar tempestuoso, o seu coração, orando pelos outros náufragos...

Tudo que o Marujo mais amava era o mar.
Assim, quando durante uma violenta tempestade caiu nas águas furiosas, não se desesperou, lutou apenas, como era do seu caráter.
Depois de algum tempo, sentiu-se embalado por uma rede de cabelos macios e escutou, internamente, uma voz suave cantando uma daquelas cantigas de sua infância. Fechou os olhos, sabia que era Serena, sua sereia vinha em seu socorro, parou de lutar e se deixou levar...

III

Quando o Marujo despertou, seus olhos se abriram devagar: estaria no céu?
A cama improvisada debaixo dos coqueiros, ela ajoelhada cantarolando baixinho, nas mãos o pano úmido, carinhosamente passado pelo seu rosto, seu corpo... se ele não estivesse tão exausto pensou, aí sim, teríamos o paraíso, mas é só esperar minha sereia, só preciso do carinho e da brisa da noite, não vai perder por esperar não, viu? meu céu...

Fim do terceiro ato de encantamento.

IV

Com a noite, o Marujo recuperado,finalmente despertou e se deparou com a imensa lua que iluminava o mar, mas ela não estava lá.
Procurou com os olhos,lá vem Serena caminhando devagar peixe assado e água de coco, aí vem ela, sorriso largo e aqueles olhos verdes, águas vivas queimando seu juízo.
- Vem cá minha sereia gostosa, deixa o peixe pra depois...
Depois da boca, das línguas, dos cheiros, das mãos, dos corpos, a noite inteira dos mais devotados jeitos, entregues a todo desejo.
Pela manhã, exausto e feliz, a encontrou tatuada em seu peito e, na areia da praia um pequeno bote de resgate.

V

Já Serena, no mar, feliz da vida carregava em si a humanidade, tatuada em seu ventre.

Fim de todo este encantamento, por enquanto...